Apresentação

Os fragmentos de antigos códices em pergaminho, especialmente quando manuscritos em séculos anteriores ao aparecimento do livro impresso, constituem uma fonte extremamente preciosa para o conhecimento dos antigos autores da cultura ocidental e mediterrânica. Muitos desses fragmentos, utilizados nos séculos XVI a XIX como capas de livros de contabilidade e de gestão por párocos, notários e outros amanuenses de instituições administrativas públicas ou privadas, constituem mesmo o único testemunho material de obras desaparecidas ou mesmo desconhecidas. É a descoberta dessas fontes, na verdade, que nos permite, hoje em dia, recuar ao passado remoto da cultura erudita na Europa nos séculos de antanho.
Pertencendo a obras de teor teológico ou espiritual, literário, enciclopédico, jurídico, médico, litúrgico, musical ou, mesmo, de outras áreas do saber científico (v. g., astronomia ou matemática), os fragmentos são, muitas vezes, os únicos testemunhos da arqueologia histórica do pensamento e da criação cultural do Homem no ocidente.
Portugal é um País especialmente rico neste género de fontes inéditas ou pouco conhecidas. Nos seus arquivos públicos ou privados, encontram-se vários milhares desses membra disiecta de velhos códices, os quais permitem reconstituir antigas bibliotecas ou os itinerários de circulação dos livros e das ideias pela Europa ao longo das centúrias que nos antecedem. Dos estudos até hoje realizados, sempre parcelares e sem a necessária sistematicidade, verificamos que o arco cronológico deste tipo de elementos codicológicos se situa entre os séculos IX/X e os finais da Idade Média. Eles são, ainda, muito relevantes para o conhecimento das escritas antigas (desde as grafias visigóticas ou beneventanas às humanísticas, passando pelas escritas carolinas, góticas librárias e cursivas).
Neste processo de (re)inventariação destes fragmentos em solo português, poderão descobrir-se documentos de importância relevante para os Estudos Clássicos e para as literaturas vernáculas, eventualmente com repercussões internacionais, como pode ser o caso de textos perdidos ou variantes desconhecidas de obras de autores clássicos e vernáculos.
 

Presentation

Written centuries before the printed book, fragments of ancient codices on parchment are a most precious source for knowledge of ancient authors of Mediterranean and Western culture. During the XVI and XIX centuries, many of those fragments were used as accounting and management book covers by parish priests, public notaries and other scribes of public or private administrative institutions, becoming thus the only material witness of missing or even unknown works. It is the discovery of such resources that allow us, at present, to go back into the remote past of Europe's erudite culture. Belonging to works that have been destroyed or lost over the centuries and including topics of diverse natures, some theological or spiritual, others literary, encyclopedic, legal, medical, liturgical, musical or even scientific (i. e. mathematic or astronomy), fragments are oftentimes the only witnesses that historical archeology has provide of Western thought and its cultural creation.
Portugal is rather rich in this type of unique and poorly known resources. In its public and private archives, several thousands of those membra disiecta of old codices can be found, which allow us to reconstruct ancient libraries or re-establish the circulation of books and ideas throughout Europe during centuries past. From previous studies-always of a limited character and without the appropriate systematic methodology-it is clear that the chronology encompassed by this type of documents will be placed between the IX/X centuries and the last part of the Middle Ages. These elements are also very relevant for the knowledge of ancient scripts - ranging from Visigothic and Beneventan scripts to humanistic ones, including Caroline, Librarian Gothic and Cursive scripts. During this process of (re)inventory of these fragments on Portuguese soil, documents could be found that would be of extreme importance for classical studies and for vernacular literature, having even international repercussions, as would be the case of lost texts or unknown variants of vernacular or classic authors.

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